4 de jun de 2014

Geração Touchscreen

Por: Eliana Rezende

Sons, telas, toques, luzes, imagens, palavras.
Um mundo feito de estímulos, desterritorializado e fracionado em ações e reações.
Os deslocamentos cada vez mais significam trafegar por redes, espaços e tempos muito mais do que com os corpos, que presos em meios de transporte estão sempre mais aprisionados do que as mentes, as retinas, a audição.


As narrativas e formas de comunicação, cada vez mais cifradas, ganham na economia silábica sua expressão máxima. As imagens tentam substituir todo um conjunto de ideias que antes precisavam da grafia de um alfabeto inteiro.

Com isto temos em formação uma geração que, pela primeira vez, consegue ter cindidos corpo e mente. As relações desterritorializam-se, e tempo e espaço ganham uma outra dimensão: glocalizam-se! (Isso mesmo, glocalizam-se, neologismo para designar local e global ao mesmo tempo, onde território físico não significa.) Ante à avalanche de conteúdos, informações e estímulos encontramos cada vez mais pessoas que vivem o que está se convencionando chamar de: "idade mídia". Relações e vidas constituem-se de formas entrecortadas, cifradas e dispersas. Tecidas pela imediaticidade, estímulos que vem de todos os lados e de complicada assimilação e análise.

O mundo glocalizado a partir de suas redes sociais, numa frase que já esta virando clichê, aproximou pessoas antes separadas por um oceano e cria fissuras maiores que as das Ilhas Marianas entre quatro paredes.
É comum em salas de um mesmo ambiente doméstico cada um estar conectado ao mundo, sem saber o que se passa na mente de quem senta ao lado.

Famílias e jovens não sabem bem como lidar com seus limites de consumo e de possibilidades relacionais. Vive-se com culpa e excessos de todos os lados: pais pela escassez de tempo fornecessem aos filhos parafernálias tecnológicas que lhes mantém ocupados e distraídos.


Duas palavras talvez sejam fundamentais em todo este processo: fracionamento e aceleração. Dessa matemática feita por duas variáveis, temos como resultante a imediaticidade.
Corpos e mentes fragmentados em seus espaços físicos, mentais e emocionais, em geral a mercê de estímulos de todas as ordens e uma profunda dificuldade de reunir e sintetizar percepções de forma mais elaboradas e consistentes.

As sociabilidades ganham com isto uma nova forma de entender realidade, até então tradicionalmente concebida como territorialidade, ligada essencialmente ao espaço geográfico, local, material, presença e de convivência; encontra agora o conceito de tele realidade, onde a realidade pode ser experimentada de um outro ponto de vista de espaços e tempos. As redes e seus meios de comunicação colocam a possibilidade de tele (vivências), desmaterialização, globalidade, distância. Tudo em tempo real.
Existir ganha um novo sentido.

Segundo Rubim (2000):
"(...) A singularidade dessa nova circunstância societária vai incidir nas cruciais questões da realidade e da existência. Essa dupla composição "fragmenta" a realidade contemporânea em uma realidade contígua, (con)vivida no entorno por cada individuo, em uma realidade remota, porque não inscrita no mapa de proximidades, agora tele(vivida) planetariamente e em tempo real como teler realidade (...) 
"(...) O caráter composto da realidade na contemporaneidade possui outra significativa consequência: ele impõe o descolamento entre existência e o existir publicamente. Hoje, a mera existência física já não assegura um existir social , expediente automático em uma sociabilidade de tipo comunitário, na qual a existência física e publica praticamente coincidem, pois a contiguidade do território, a exigência da presença e as dimensões possíveis do mundo garantem o compartilhamento, o movimento de tornar comum coisas e pessoas, enfim a publicização. Nesta circunstância societária existir fisicamente significa, sem mais, ter existência pública. (...)"

Essa cisão entre real e virtual, público e digital talvez seja o maior de nossos desafios. As existências se multifacetam, ao mesmo tempo que cindem corpos, almas, sociabilidades, pessoas...

Nem bom nem mau em si. Apenas uma nova forma de relação com tempo, espaço e estímulos.

De tantos fragmentos e estilhaços movidos em velocidade e em substituição constante é que nossos adultos do futuro serão formados. Dispersão e em vários casos dificuldade de estar profundamente absorto e comprometido com algo, passa a ser um desafio para cada um.

Em verdade o que temos são verdadeiros caleidoscópios de relações efêmeras.

Fica o desafio:
Como usar e potencializar todas essas habilidades de um mundo feito de tantos estímulos em prol de melhores adultos?

4 comentários:

  1. Oi Eliana,
    Li e gostei do post. Tanto que deu nisto:
    ...
    Entramos no mundo de contos de fadas... fadas eletrônicas. Estes entes tecnológicos podem (quase) tudo. É só ligar (on) o gadget que ele nunca mais desliga (off), ficamos reféns de uma identidade virtual imaginada por nós mesmos. Enrolados numa rede pegajosa que se replica a cada ideia nova de mercado. Ou iteração com outros entes iguais a si mesmos. Mas, que como outras criaturas, não obedece a seu criador.
    Entramos num ambiente onde há uma aceleração da irrelevância. Soluções rápidas e relacionamentos efêmeros, curtir e compartilhar substituem, sem méritos nem julgamentos, o ser e estar. Encantados com o ambiente idealizado seguimos, como ratos a música, sem prestarmos mais atenção ao caminho. Até onde os aparelhos, as fadas ainda na vitrine, escolherão seu comprador por proximidade. Identificando, por análise booleana prévia, quem pode ou não, adquirir a tecnologia oferecida. E se oferecendo a este ou aquele transeunte.
    Do lado de cá, veremos somente o que essa análise nos ofereça. E seremos impenetráveis à diferença. Verdadeiros zumbis estratificados...
    Poucos Amish escaparão... não haverá existência real sem a virtual. Se não tiveres avatar, para todos os efeitos, não existes.
    Educação, papel... para quê? Podemos estudar no transporte, escrever no tablet, armazenar na nuvem.
    Alma?
    Será que está classificada nos bancos do Google?
    Será que abrimos uma janela, um canal ou caminho, por onde entramos em comunicação com... alguém, no outro lado?
    E estamos usando nosso código para interpretar as mensagens que recebemos em sinais para as quais não havemos tradução?
    Será que toda essa interação digital não poderia significar: "olá, tem alguém ai?"

    Abs

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    1. Ol@ Lionel...
      Muito obrigada por teus acréscimos e complementos às minhas postagens!
      Sempre tão pertinentes e enriquecedoras. Obrigada pela partilha!
      Abs

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  2. Olá Eliana,
    muito interessante o seu ponto. Vale dar uma lida também nesse outro artigo, também batizado de Geração Touchscreen, que discute um pouco mais se é "certo" ou "errado" permitir às crianças em tenra idade o acesso à tecnologia.
    http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2013/04/the-touch-screen-generation/309250/

    um abraço
    Mariela

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  3. Ol@ Mariela...
    Gostei muito de sua dica de artigo.
    Tem um post que ainda está na gaveta que abordo tais questões.
    Enquanto isso, também tenho me debruçado na experiência da escrita de próprio punho e o quanto tem se alterado muito nos últimos tempos e não apenas com adolescentes. Haja visto nós próprios.
    Tenho me concentrado muito nisso e tbm nas formas de ler e escrever. Experimente ler essa sequencia que fiz sobre "Em Tempos de Tintas Digitais: Escritos e Leitores - Parte I", http://pensadosatinta.blogspot.com.br/2014/03/em-tempos-de-tintas-digitais-escritos-e.html
    Aqui está só a primeira parte, mas fiz uma sequencia.
    Boa leitura e vamos papeando!
    Abs

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