30 de mai de 2017

Leitura em tempos de textos visuais

Por: Eliana Rezende




Fenômeno estranho o que estamos assistindo.

A invasão imagética tem sido de tal ordem e magnitude que outro dia parava e pensava sobre o que eram simples textos. Ideias justapostas em parágrafos e que, em sendo construídos, chegavam a ocupar páginas inteiras.

Hoje temos uma economia de sentidos que possibilita o uso de textos curtos mas não mais em formas de parágrafos justapostos, mas de imagens. E nesta profusão de conteúdos sintéticos com perfil de fotografia vamos encontrando de tudo: de frases de autoajuda, palavras de ordem, desafios cognitivos, tentativas de pequenas piadas e críticas sociais, até o seu posposto: incitamento ao ódio, violência, xingamentos, xenofobias, preconceitos.

Os textos - se escritos são pura e simplesmente economia silábica e há todo momento saltam dos mesmos listas, enumeração e pontos: sempre temos a sensação de que saímos de vez de um texto de Word e entramos direto numa apresentação em PPT.
Cansativo, repetitivo.


Ou seja, a sociedade passou a ser amplamente imagética e pergunto-me quase que ao mesmo tempo em que respondo que isto ocorre por demanda de velocidade e pressa. Ler passa a ser um item de luxo e a máxima "uma imagem comunica mais que mil palavras", parece ser o objetivo perseguido.
Seria isso ser bem vindos à Era da Informação?

No rol das imagens, e talvez por ser ainda mais rápido, são acrescidos sons e imagens. Os vídeos ganham popularidade na forma inversamente proporcional em que conteúdo, forma e compreensão se perdem.


A cultura visual economiza silabas e cria como forma de interação emoticons.
Para quê uma frase inteira?!
E assim seguimos, cada vez mais produzindo cifras de todas as ordens.
O século XXI nunca esteve tão próximo de uma escrita cuneiforme!
Imageológica. Icônica!


Como digo, inovação não tem sido o forte das redes sociais. Como explicar tanta proximidade com a escrita cuneiforme em tempos digitais?
O pior é que numa escrita cuneiforme existia todo um domínio e construção sígnia, o que definitivamente não ocorre aqui. Em geral, as pessoas nem sabem escrever por extenso muitos de seus emoticons.

O que salta aos olhos são que as pessoas estão perdendo a habilidade e motricidade para a escrita, estão indo para a mais simplória das  simplificações imagéticas, auxiliados cada vez mais pelas tecnologias que surgem em seus Smartphones, que tentam todo o tempo "adivinhar" e completar palavras. Atualmente basta uma sílaba ou letra para que se tente imaginar os pensamentos de quem escreve. 


E a próxima pergunta: "porque será?"

E de novo, respondo que, talvez porque ainda sejamos os mesmos seres primitivos que encontramos em formas simplificadas de comunicação a solução de tudo o que ignoramos ou não nos interessamos em saber ou fazer.

Se curtir e compartilhar é mais fácil do que construir, articular, verbalizar, porque perder este tempo?

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14 de mar de 2017

O Vendedor de Enciclopédias

Por: Eliana Rezende






Olhando pela vidraça da janela da sala, chegando como uma novidade esperada, vem o vendedor de enciclopédia. Eram eles que traziam o mundo em puzzle e informações à conta-gotas em formatos de verbete. 

Sempre bem engomados, ternos escuros, camisa de um branco reluzente. sapatos bem engraxados e as meias combinando ora com o sapato, ora com as calças, cabelos bem penteados, muitas vezes usando alguma pomada, sorriso aberto, voz macia. Ofereciam janelas para o mundo direto de nossas portas quando de dentro de suas malas faziam surgir coloridos livros, imagens, textos e toda uma parafernália de estímulo aos sentidos e à imaginação.

Sonhos, fantasias e até o mito de mascatear cultura vinham em meio à suas páginas ofertadas em diferentes composições e possibilidades. Muitas vezes folhadas ávidamente por dedos rápidos e olhares curiosos de clientes domiciliares.  

Materializavam o sentido do saber e informação de um mundo que corria analogicamente, com notas de rodapé e com pesquisas cruzadas manualmente. Artefatos construídos com rigor interno e estética que fosse agradável aos olhos. Em grandes formatos favoreciam a visibilidade de letras e imagens, as capas duras ornadas em detalhes dourados faziam a diferença em qualquer prateleira ou estante. Perfiladas lado a lado davam a dimensão da abrangência dos temas que tratavam. Tê-las, por largos tempos era sinônimo de status social e cultural. 



As enciclopédias não eram para apressados, diletantes ou preguiçosos. Eram para os que tinham o prazer da degustação por caminhos de indagação e pesquisa. Por aqueles que de fato liam e buscavam conexões e compreensões. 

Eram para os que a noite davam aos filhos a opção de escolher entre coloridos livros infantis histórias de duendes, fadas, Sacis, Emílias. 

As enciclopédias foram por largos tempos sonhos de consumo e símbolo de status de camadas eruditas da população. Tê-las significava entre outras coisas ter acesso a um conjunto de informações diversas e grandes possibilidades de gerar conhecimento.

Mas o tempo foi passando e o personagem com o terno engomado e sua mala preta cheia de livros e folhetos demonstrativos não encontra mais nossas portas.Subiu no seu fusca e nos abandonou no tempo e no espaço.
Hoje é uma rememoração distante, quase perdido nas névoas do tempo. 


O mundo wikipediano não tem mais lugar para este tipo urbano que habitou por tantas décadas nosso imaginário. No mundo de web 2.0, 3.0 o que temos são links, hiperlinks e uma enciclopédia colaborativa escrita por anônimos e reconstruída todos os dias. Suas fontes, muitas vezes duvidosas e equivocadas, são consultadas milhões de vezes em todas as línguas e dialetos possíveis e servem aos tempos que temos: de pressa, superficialidade e muitas vezes incapacidade de pesquisar, ler, compreender, construir conexões e tecer elucubrações e sínteses.

Não há aqui saudosismo piegas: há apenas a constatação da configuração de um novo tempo e de nossa relação com estes saberes constituídos e reunidos em um determinado local. 

O saber era algo hierarquizado, localizado por verbetes e armazenado para consumo linear. Hoje a leitura e a apropriação da informação segue diferentes trilhas e possibilidades, algumas bem rasas outras com algumas laminas de profundidade.

O futuro será o melhor juiz deste tempo que produz informação como nenhuma outra época da história da humanidade, mas tenho cá minhas dúvidas se a produção de conhecimento obedeça a mesma métrica e curva ascendente. Temo que a qualidade apresenta-se inversamente proporcional à quantidade.