23 de ago de 2016

Uma alma que gosta da chuva

Por: Eliana Rezende


A voz da chuva acalenta meu espírito, tranquiliza meus olhos e afaga meu coração.
O seu som preenche cada canto recôndito do meu ser e dá-me a companhia mais que desejada.
As gotas que chegam uma a uma e que, rápido são uma multidão oferecem sons ao meu silêncio.
Preenchem sem encher, silenciam para dar eco ao que vem de lá de dentro.

Sempre acho que minha alma é outonal.
Gosto de dias molhados, chuva miúda, água encharcando a terra e dando mais verde à paisagem, gotas que respingam e desenham vidraças que emolduram. Tudo fica enquadrado... e calmo...
Gosto das folhas e dos tons de outono e da forragem que oferecem à paisagem. Casadas com a chuva, molham a terra e fornecem uma composição perfeita de tons e odores.
Entorpecem os sentidos, acomodam vontades, liberam prazeres.

Gotas que lavam o céu ao mesmo tempo em se se desabotoam sobre a terra.
O silêncio fica então cheio de elementos e sensações, uma sinfonia que ganha notas ora metálicas, ora graves a cada gota que encontra resistências: pedras, baldes, troncos, bancos, pisos....

O espaço desta composição em notas molhadas e folhas caídas é o lugar onde guardamos nossa alma e nos enchemos do silêncio de seu canto.
É só saber ouvir tanta harmonia!



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22 de jul de 2016

A desinformação togada e o WhatsApp

Por: Eliana Rezende

Foram uma, duas, três vezes e milhões de brasileiros sendo penitenciados por uma decisão togada que revela além de uso desproporcional de força um equívoco provocado por desinformação começada na toga e concluída em praça pública.

Não creio ser necessário entrar no mérito da questão judicial que de um lado pressiona a empresa detentora do serviço (WhatsApp) e a questão de quebra de sigilo de contas de contraventores ou punição de milhões de inocentes.

O que me chama a atenção é a desinformação sobre o assunto da criptografia por parte dos que julgam e promulgam sentenças. Algo crasso e imperdoável. Emitem pareceres que caberiam bem no século XIX, ou no XX sem web. Mas nos dias de hoje?!
Para além de tudo significar ferir diretamente o que determina o Marco Civil Regulatório da Internet no Brasil e o artigo nº 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos de uma única vez.

Mas afinal: o que é mesmo criptografia?

Se formos ao dicionário, a definição mais completa seria:
"(....) Conjunto de regras e técnicas utilizado para cifrar, para codificar a escrita, transformando-a num tipo de código incompreensível para quem não está autorizado a ter acesso ao seu conteúdo. (...)"

A palavra criptografia vem do grego e é formada por duas palavras: "kryptós" que significa oculto e "gráphein" que significa escrever. Ou seja, é uma escrita escondida.

A técnica em si não é nova e remonta às civilizações clássicas gregas, romanas e egípcias que criptografavam seus escritos para impedir que inimigos tomassem conhecimento de seus escritos.

A criptografia funciona como se fosse um embaralhamento de dados. E tal como ocorria em tempos passados, o objetivo é tornar seguro o conteúdo da informação trocada entre partes.

O grau de segurança de uma criptografia esta na quantidade bits utilizados para encriptação. Já que um sistema de encriptação que contenha 8 bits oferece um universo de 256 combinações diferentes. Atualmente utilizam-se 128 bits (que são combinações de números e letras).  
Para se ter uma ideia, no modelo 128 bits, para se conseguir decodificá-los seriam necessários 40 computadores trabalhando simultaneamente durante 20 anos ininterruptamente!

De um ponto de vista mais técnico, diríamos que a criptografia pode ser simétrica e assimétrica e envolve uma série de procedimentos para cada um destes casos. Como não é objetivo deste post esplanar tecnicamente isto sugiro a leitura para maior entendimento e mais fontes de bibliografia e consulta o texto "Segurança, Criptografia, Privacidade e Anonimato".

Para compreender um pouco mais sobre os usos e aplicações da criptografia nos dias de hoje, assista o vídeo "O que é Criptografia".

Graficamente a criptografia pode ser exemplificada da seguinte forma:


Ou seja, o conteúdo das informações trocadas ficam disponíveis apenas entre os envolvidos, como se houvessem cadeados que as trancassem e apenas a chave que cada um tem as abre e decodifica.

Agora vejamos o caso do WhatsApp

Recentemente a ferramenta enviou mensagens a todos seus usuários informando que estaria sendo utilizada a criptografia de ponta-a-ponta. Provavelmente foi uma mensagem assim que você recebeu no seu celular, e que continua a receber toda vez que acrescenta um novo contato:

 

O que de fato este tipo de criptografia significa?
A chamada "criptografia de ponta-a-ponta" do WhatsApp assegura que somente as pessoas que estão se comunicando possam ler o conteúdo trocado. Ninguém mais consegue fazê-lo, nem mesmo o próprio WhatsApp.

Este formato de segurança, apesar de questionado para os casos de uso ao crime é uma grande segurança para usuários comuns e que representam a esmagadora a maioria de utilizações. Claro que crimes podem ser cometidos, mas interferir neste caso significa por em xeque a segurança de milhões de usuários. Algo prezado e alvo de muitos lutas e debates para que passassem a existir.
Por envolver tantos milhões de pessoas e negócios é uma relação onde o custo benefício precisa ser medido de forma responsável.
Como o próprio STF vem se manifestando, este tipo de punição a milhões de pessoas é desproporcional.
De minha parte, acrescento que, ignorante por parte de quem julga e inconsequente perante a punição de milhões de usuários que nada tem com o ocorrido. Não se pune 100 milhões de pessoas por causa de 1 contraventor!

Além do mais, as decisões de bloqueio tomam a ferramenta como se a mesma funcionasse como um telefonema. O que nossos togados se esquecem, é que apesar de ser usada em um aparelho celular, a ferramenta está longe de possuir as características tão usuais de grampos telefônicos.

Se criminosos se comunicam da cadeia usando a ferramenta, o problema que precede ao seu uso, e este sim de competência das autoridades, é o de celulares nos presídios!

Enquanto soluções tecnológicas que atendam de um lado o direito à privacidade e sigilo de uns e, de outro, o praticante de delito não estiverem disponíveis e sem prejuízo a ninguém, é preciso que togados usem de bom juízo e entendam os tempos que julgam, os meios tecnológicos e o seu alcance social. As decisões não podem ser unilaterais, autoritárias e desproporcionais. Fazer isso fere a essência do que seja praticar o Juízo e a justiça.

Julgar, tomando em conta um único aspecto e perder de vista o alcance e prejuízo social de todos, em nome de um é uma irracionalidade torpe e sem sentido.
A imagem da justiça com uma venda nos olhos parece se aplicar com precisão nestes casos.


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26 de jun de 2016

Cultive gênios: aprenda com os fracassos!

Por: Eliana Rezende

É muito pertinente pensarmos de que forma se "cultivam" genialidades. Ninguém as cria! Mas, uma vez existindo terreno fértil podem frutificar.

A humanidade produziu diversos, em diferentes períodos e espaços, mas o tripé: mistura de pessoas, educação e incentivo a tomada de riscos e fracassos, parece de fato contribuir para que haja saltos qualitativos.


Confesso que gosto muito, e incentivo a tomada de riscos e fracassos. Em geral, profissionais temem o fracasso, e se esquecem de que sobre ele podem edificar uma sólida construção. Não que o erro seja desejável, mas faz parte de um processo que, se bem conduzido, possibilita dividendos.
É importante pensarmos que a educação e a formação devem ter em seu horizonte os fracassos e deles criar novas possibilidades. Tal concepção favorece o cultivo das genialidades - não como algo extraordinário, mas como absolutamente possível e viável.

Talvez a coisa mais importante aqui não seja o sentido de gênio como DNA, mas sim o sentido de educação formal ou corporativa, como meio de cultivo das possibilidades individuais. Em vários casos haverá aqueles que são brilhantes, acima de qualquer média e que farão diferença em qualquer espaço em que estejam. Mas também concordo que haverá uma maioria que estarão nessa linha.

A "mágica" está em, precisamente, pinçar tais individualidades e as fazer render seu máximo. No geral, entram aí uma boa dose de capacidade inerente ao bom agricultor: paciência no cultivo, e ações concretas que façam frutificar aquilo em que se depositou sua confiança ainda como semente. 


Quase sempre, os meios educacionais e profissionais "queimam etapas". Pulam o que há de mais precioso que é o estado de gestação que varia de pessoa para pessoa. As condições em que estas se encontram.

"Cultivar" potenciais... sendo gênios ou não, é uma tarefa fácil e requer habilidade que em muitos casos não combinam com o mercado e suas demandas. Mas com certeza possui resultados que também não tem nada a ver com escalas de linhas de produção em série.

O "genial" estará dado por tudo o que apresenta como sendo único.

Acertos são bem vindos, mas os fracassos também podem dar consistência a um pensamento ou ideia. Em vários casos, podem servir de "lapidação". Vejo que em diferentes sistemas: quer educacionais quer corporativos, errar torna-se sinônimo de fracasso irremediável, quando de fato não é assim.

Todas as formas de educação precisam incorporar o outro...tanto quanto o diferente ou o erro. Fazendo isso com certeza vai-se mais longe.






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5 de abr de 2016

Memórias digitais em busca da eternidade

Por: Eliana Rezende

De novo a questão das obsolescências e permanências.
A crescente demanda tem imposto alguns limites e soluções precisam ser buscadas.
Como não perder tudo o que se produz? E com quais custos? Muitas perguntas de fato!

Creio que isso se transformar em uma reivindicação é de fato um progresso interessante.
São dois pontos importantes: a busca por um direito de acesso à informação e de outro o exercício de cidadania.


Diriam alguns que Tecnologia da informação é um eterno reinventar, por que existe a barreira das leis da física. Noves fora isso, o restante é com o departamento de marketing. Mas será?
Poria outros dois mais: o financeiro que destina recursos, e porque não a preservação de documentos para o futuro?


Como historiadora, um dos principais obstáculos que temos é a garantia de acesso a documentos através do tempo. A longa duração para historia pode significar a eternidade, já para a tecnologia ela representa tão somente casas que vão abaixo dos dois dígitos e que ficam em torno de 3 ou 5 anos. A conta não fecha!
Haja visto a quantidade, por exemplo, de links e arquivos digitais que se perdem todos os dias. Somos a geração que mais produz informações em toda a história da humanidade, mas também a que mais perde.

Já convivo nos dias atuais com perdas irreversíveis e isso vale tanto para suportes físicos quanto digitais. Por isso, a minha preocupação sempre presente com a preservação documental sob vários aspectos: sem ela teremos vácuos impossíveis de serem recuperados pelas sociedades futuras.

Um exemplo interessante é o caso do Livro do Apocalipse, de William o Conquistador, escrito em couro no ano de 1086. Sobreviveu por 900 anos, chegando até nós. Mas uma versão digitalizada da obra, gravada em 1986, não pode mais ser lida em 2006, apenas 20 anos depois.
Seria cômico, se não fosse trágico!


E os problemas se multiplicam quando pensamos na quantidade imensa de Bibliotecas Digitais que são formadas e que poderão facilmente estar perdidas para sempre.

E em relação a Portais institucionais, sites e blogs temos sérios problemas.
Uma massa imensa do que produzimos nasce, vive e se desenvolve em meios digitais. É editado, alterado e recortado nestes meios e posso assegurar que ninguém se preocupa com suas versões anteriores.
Ninguém tem se preocupado com as inúmeras páginas de conteúdo que desaparecem quase que na mesma velocidade em que são produzidas. Até 2020, segundo expectativas, teremos produzidos 44 zetabytes de informações.
Para se ter uma ideia, 1 zetabyte equivale a 2.000.000  de anos de música!

A despreocupação vale para conversas em redes e imagens... muitas imagens.
Ninguém registra estas correspondências ordinárias e nem seu movimentado alfabeto de construção. Séculos adiante não teremos como saber as formas de registros coloquiais que nossa geração produziu.

Inventamos a internet para ser apagados por ela! Não deixaremos sequer rastros.
O descarte imediato de tudo leva-nos para um não lugar. Um espaço virtual, sem forma e vazio.
Não daremos aos nossos descendentes a possibilidade de conhecer nossos pensamentos por registros cotidianos, que antes eram tão bem feitos por diários, cartas e outros tipos de registros.

Há ainda os textos e hipertextos, numa leitura que há muito deixou de ser linear. Perderemos conteúdos e as leituras hiperlinkadas que cada texto produziu.

Enfim, nosso presente é editado e recortado com desprezo incondicional por sua gênese.


O mesmo ocorre com muitos manuscritos ficcionais e obras literárias várias.
O tempo dos manuscritos editados à mão pelo artista não existem mais e assim, muito de seu processo criativo se perde. As versões editadas e limpas chegam sempre às editoras sem o rastro dos caminhos de uma escrita.
Esta ausência inviabilizaria uma publicação como a que ocorreu com Mário de Andrade, que recentemente teve uma edição da obra e seus manuscritos. Uma riqueza documental propiciada por originais, cartas, rascunhos e tão belamente trabalhados no IEB/USP. 

A situação é tão inquietante que no Reino Unido estão fazendo a solicitação para que escritores entreguem seus computadores antigos ao invés de os jogarem fora para a British Library e, utilizando-se de programas de investigação forense e perícia reconstituem por metadados tais caminhos criativos de grandes autores.
Uma tarefa que aos poucos também me parece inviável, já que seria um forma de arqueologia digital (manter computador, software e hardware), e fazer a manutenção disso no tempo, também não me parece razoável e nem possível.

O mesmo vale para importantes pesquisas científicas  publicadas. Temos sempre um artigo limpo e editado e nunca os caminhos rascunhados, desenhados, arquitetados e editados, percorridos.
Sorte teremos se daqui a 100 anos o artigo final esteja preservado!

O valor destes manuscritos são fáceis de ser mensurados quando pensamos em Isaac Newton, Albert Einstein, Leonardo Da Vinci. Que seria de nós se apenas tivéssemos sua última versão?
Sem sabermos suas indecisões e por onde andaram seus pensamentos e invenções? É deste trajeto que me refiro quando falo em processo criativo deletado dia a dia. 


Um exemplo bem acabado do que cito foi que cinco séculos após a morte de Leonardo Da Vinci cientistas italianos conseguiram interpretar seu projeto para um carro, e recriá-lo a partir de suas anotações. A invenção é considerada um precursor do automóvel moderno. Conheça-o: 




Óbvio está que não poderemos, a bem da sanidade, preservar "tudo" o que se produz. Mas há que haver políticas que visem a preservação digital de nossa produção social, cultural, intelectual e científica. Não se pode tolerar a ideia de que séculos adiante, igual aos Maias, seremos reconhecidos como aqueles que não deixaram herança aos seus descendentes. 

É aquí que entra uma das minhas maiores motivações profissionais: ajudar a salvar do esquecimento e da obsolescência, os vestígios de nossa civilização.  As instituições precisam se dar conta que NECESSITAM de uma política de preservação digital, tanto quanto de ferramentas para produção e uso de informação no agora.  Não terá valido de nada tudo o que uma organização, pessoa, instituição ou sociedade criou se não for capaz de preservar isso para o futuro. 

Imagino que duas coisas são fundamentais: uma reconhecer que temos tantos problemas quanto produção massiva de informação. Outra, que apesar de tudo não precisamos abrir mão de tudo e entrar num desânimo pessimista.
 
Políticas sérias de preservação digital, com um olhar que vá bem além do horizonte imediato, podem minimizar problemas. É um caminho que requer planejamento e investimento em recursos (tempo, dinheiro e pessoal).
Possível e viável, desde que planejado e desejado.  

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1 de mar de 2016

Viagem Pitoresca ao Brasil, de Debret

Por: Eliana Rezende
          &
Lionel Bethancourt

História pode também ser escrita por imagens, e livros nem sempre precisam de palavras dispostas umas após outras para compor um enredo. Este é o caso do livro "Viagem Pitoresca ao Brasil”, uma obra de Jean Baptiste Debret.

Imagens que povoam nosso imaginário, que são nossas velhas conhecidas desde os tempos de escola e que olhadas séculos depois nos mostram tanto! Caso não conheça, ou não se lembre, clique aqui para (re)ver/lembrar/conhecer.

Vendedores de palmito e de samburás, 1834-1839 - de Jean-Baptiste Debret (França, 1768-1848)
Gravura baseada em aquarela, original c. 1825

A beleza e precisão dos traços de Debret são fantásticos e nos fazem pensar sobre o quanto hoje em dia as mãos e as possibilidades que estas tem de traçar e desenhar se afastam disso e aproximam-se de teclados, Ipads e mouses....
Será que estaríamos desaprendendo?

Bem, não sejamos tão radicais. Desaprendendo talvez não.
Há, contudo, uma certa carga de imediatismo adicionada à fórmula de criação. Uma grande carga de imediatismo. Os materiais continuam acessíveis, e ainda mais, porém a velocidade de produção de resultados é que aumentou. E, definitivamente, tem algumas técnicas que requerem tempo.
Tempo para aprender e tempo para produzir... arte.

Na época em que Debret e seus colegas fizeram a viagem, o tempo transcorrido entre rascunho e obra acabada, teriam causado sua demissão de qualquer editora moderna. Hoje somos balizados por parâmetros: tempo, produção, custo. Produzir mais, consumindo menos. Tudo para ontem.
Ainda há bolsões heroicos de resistência, basta procurar com atenção. Veja, por exemplo o DeviantArts, onde se estimula a criação pela exposição de iguais. Algo parecido com "The Studio" (de Manhattan em 1975) de Jones, Kaluta, Windsor-Smith e Wrightson, onde o ambiente compartilhado e a exposição mútua estimulava a criação um do outro.
Guardadas as devidas proporções, claro.
Sim, temos que largar os teclados, os Cintiqs, e pegar um pouco mais no lápis e carvões.
Treinamento faz...


A criatividade é um elemento de fato muito interessante. A produção de Debret em seu tempo conseguiu trazer uma riqueza de detalhes que provavelmente nos dias de hoje passariam desapercebidos.

Lápis também é tecnologia e, é o olho que vê e a mente que cria, que tem esse poder de nos remeter a um tempo e espaço que hoje já não existem mais. O artista nesse caso preocupava-se com a fidedignidade da imagem, mas com certeza introduzia elementos que tornavam sua imagem o "mais real" e factível possível.
Hoje acho que acabamos delegando muito às tecnologias. Agudeza, profundidade e minúcia não parecem constar em muitos dicionários de ditos profissionais.
De fato, precisamos aprender com esses traços.

Se tomarmos o tripé citado acima: tempo, produção e custo, toca no ponto fulcral de toda essa imediaticidade que aflige e poda qualquer criativo.
Que criatividade resiste a tal tripé?
De outro lado tanta imediaticidade garantirá quanto tempo de permanência?
Temos traços feitos há 300, 500, 1.000, 2.000 anos, mas será que teremos essa permanecia para as produções atuais?
E aí, caímos na discussão de outro post sobre a preservação digital de toda a nossa produção humana, incluindo as artes.
Eis a importância de termos oásis e possibilidades de resistência criativa.

Um destes exemplos pode igualmente ser visto neste vídeo, da Café Communications, sobre tempo e criatividade.
Acho (achismo solto) que já deve ser farto conhecido de todos, pois roda faz algum tempo pela web. Mas para quem não conhece é uma excelente oportunidade e para quem conhece é uma ótima oportunidade de rever.


Após ver aquele, deveríamos sentar e assistir esta palestra (de 11m.) do David Kelley na TED sobre como criar confiança criativa (clique aqui para ver). E teremos um contexto todo diferente sobre criatividade, tempo e... auto-eficiência.

30 de jan de 2016

Será mesmo que você escolhe?

Por: Eliana Rezende


Me incomodo quando vejo imensas, e diversas, campanhas publicitárias que no fundo são sempre mais do mesmo.
Elas procuram de todas as maneiras vender-lhe a ideia de que você está escolhendo, o que me parece tão sem sentido!
Explico:

Escolher, por exemplo, um carro entre as cores metálicas (em geral prata), branco, preto ou vermelho? Isso é escolher?
Experimente fazer o exercício de olhar um congestionamento qualquer e verá sempre os mesmos carros (uma ou outra alteração aqui e ali; às vezes uma lanterna, outras uma frente mais ou menos arredondada, mas é só), um amálgama, sempre das mesmas monótonas cores primárias trafegando comprimidamente entre seus 5 lugares. Mesmo por dentro tudo é disposto sempre da mesma forma e maneira.
Motores isso ou aquilo, para quê? Se todos conseguem desenvolver apenas aqueles míseros 20 km/hr nas ruas e avenidas de trânsitos congestionados das grandes cidades?


Observe o mais novo celular que você puder encontrar.
Temos os mesmos botões e posições desde sempre na interface!
Enfadonhamente iguais. Chamam isso de tecnologia amistosa.
Amistosa?! E a tão propalada inovação?!

A cada novo lançamento tenta-se apregoar que você, ao escolher este e não aquele, terá imensas vantagens.
Mas, será mesmo?
Em linhas gerais o que possuem? Teclas para receber e fazer chamadas, botões para fotografar, filmar e mandar mensagens. Enfim mais do mesmo...de novo!

E quando lançou-se a tela touch ninguém quis saber que é terrível estar com os dedos engordurados e passar a mão na tela que você porá no rosto. Que os dedos estão sempre em outros lugares, e que num país tropical, por exemplo, protetores solares, cremes e outros produtos simplesmente transformam estas telas em um emplastro muitas vezes inominável.
A bem da verdade, os celulares em geral, são simplesmente imundos!
Pesquisas da Universidade de Stanford indicam que tais telas são veículos importantes de transmissão de vírus e bactérias comparáveis aos encontrados em descargas de vasos sanitários. 
Ou seja, as telas independente do modelo, ou geração tecnológica, têm em comum um vidro seboso,  embaçado e altamente contaminado nas mãos daquele distinto cavalheiro ali, ou daquela mulher com unhas impecáveis e joias. Definitivamente a imundície é muuuito democrática!
E não falei dos passeios que estes aparelhos fazem direto da pia de um sanitário público para a mesa de um restaurante. Esta também é a escolha que se apresenta: levar o aparelho para TODOS os lugares, ou saber a hora adequada de mantê-lo guardado.

Sugiro a leitura de um post sobre o tema: "Escravos do celular?", onde procurei tecer um perfil comportamental deste tipo de escravidão.

Veja as TVs.
Não conseguimos sair da caixa preta quadrada. Todo mundo oferece a mesma coisa!
E as pessoas, num deslumbramento cego, nem se apercebem de que estão fixados na mesma coisa que seus avós! Em verdade, reproduzem o formato dos rádios que ficavam nas salas dos nossos avós e até bisavós. Ganham dimensão em altura e largura, para serem dispostas em apartamentos que ficam cada vez cada vez menores. As paredes diminuem na exata proporção que as telas aumentam.
Mas porque ainda em formato de retângulo?

E os computadores?
Já passamos mais de uma década e ainda estamos no simulacro de TV de nossos antepassados. A caixinha quadrada está ali. Tudo na mais perfeita semelhança.
O teclado? Vocês com certeza viram máquinas de escrever. Existem há mais de um século! Temos os mesmos teclados e disposições....
Veja algumas no post que escrevi: "Pensados a Tinta escritos à Máquina" e aproveite para apreciar os reclames de venda desta tecnologia. Talvez descubra que de novo temos mais do mesmo na publicidade impressa. 

E que tal falamos das gerações Windows?
Percebem que desde o inicio temos exatamente a mesma coisa? O que tem sido nosso Word, por exemplo, desde sempre? E o mesmo ocorre com todo o pacote Office.
Ah! mas dirão: há a velocidade X, a capacidade de armazenamento Y... só que na essência continuamos a lidar com a lentidão de processamento de alguns tipos de documentos, e quase sempre nos vemos frustrados que este ou aquele arquivo não abre ou roda....

Ande por lojas, mesmo as que são fast-shopping e verá as mesmas roupas, cortes e afins.
A variação será o preço e o tipo de tecido, melhor ou pior... mas a monotonia de um exército de pessoas vestindo sempre as mesmas coisas e consumindo vorazmente, sempre mais do mesmo, incomoda-me bastante. Vá para a janela mais próxima de uma grande avenida de circulação na hora do almoço. Verá um exército de homens e mulheres vestindo quase sempre as mesmas coisas, e o que é pior: com quase nenhuma ousadia com cores, texturas, bom gosto! Nuvens de preto, azul marinho e branco fornecem "segurança" aos não iniciados na arte de entender que se comunica com o que se veste. E que monotonia nos alcança quando cobrimos nosso corpo de tédio e preguiça criativa.


E a coisa fica ainda pior quando vamos analisar o chamado marketing digital.
De repente, a escolha deixou de ser algo que se espera que o consumidor saiba fazer. Delega-se a algoritmos suas preferências e, cada vez mais, as campanhas ficam uniformes. Todas as vezes que você faz uma busca, os resultados exibidos são sempre os mesmos, porque um dia você foi por esta via. É quase como se estivesse preso a um eterno retorno. Sempre levado aos mesmos lugares e caminhos.


Em outras oportunidades já falei sobre de que forma o Google restringe nossas capacidades de encontrar e interagir com o novo. Confira o post "Se não está no Google, será que existe?". Preste atenção no quanto esta restrição algorítmica retira de todos o encontro com o novo.

A forma e o funcionamento que o marketing digital tem usado torna-nos meros fornecedores de dados. Embalados e empacotados, servem a todo tipo de campanha e é fácil ver nossos e-mails invadidos com publicidade sobre palavras que usamos nesta ou naquela busca.
Deixamos de ser donos de nossas informações e as vemos expostas na rua larga da web.

Todo este desenvolvimento traz como mote que você em verdade não precisa ou não sabe escolher.
O algoritmo saberá melhor que você.


A pergunta que fica é: será mesmo que você não sabe escolher e precisa que outros te digam isso?
Ou, o que é pior: será mesmo que você escolhe alguma coisa?!


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12 de jan de 2016

Dia de Festa: O “Pensados a Tinta” está fazendo seu 2º Aniversário



Por: Eliana Rezende

E as páginas do calendário caíram e de novo estamos começando um novo ano e o “Pensados a Tinta” completando seu 2º aniversário.
Passou depressa e depois de ter dados seus primeiros passos, hoje está integrado à minha vida e talvez à vida de tantos leitores. Chegamos a 12 de Janeiro de 2016 com mais de 85.500 leitores: interlocutores que estimulam minhas inquietações e vontades. Que prazer poder ter tintas suficientes para trocar ideias, pensamentos, reflexões!

A todos os que me acompanham, dou aqui meu muito obrigad@. Sem vocês seria muito difícil ter inspiração, motivação e vontade para a escrita.

O Pensados a Tinta vem sendo uma forma deliciosa de expressão e comunicação com a qual aprendi a me relacionar e brincar com palavras e arquiteturas de ideias.

Após escrito, cada post emancipa-se de suas tintas e ganha vida e autonomia. Deixa de me pertencer. Ganha sentidos diversos de acordo como cada leitor encadeia sua leitura e seus pensamentos. Tecem-se redes de compreensão e valor. Mas em todos os casos vêm do fundo da alma e por isso cada um deles me representa como faceta. Compõem um mosaico do que sou, penso e sinto.  Daí que escrever é rasgar-se e tenho procurado rasgar-me cada vez mais intensamente e despudoradamente em todas as áreas que me são caras. Por isso escrevo sempre de formas tão diversas e sobre tantos temas.
Sendo assim, tomo a liberdade de fazer uma lista daqueles post que mais me tocaram no ano anterior.
Convido-os a ler se não leram.
E aos que já leram, quem sabe uma releitura?

Não os colocarei em ordem de afetos, mas são os meus preferidos do ano. Será que concordam comigo?

Ei-los:
A Boa Morte é a Arte de saber Viver

E agora, vamos brindar?
Tim-Tim....



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